Esta planta, de nome científico Marsilea azorica Launert & J. Paiva é uma espécie protegida pela Convenção de Berna (Anexo I) e pela Directiva Habitats (Anexo II). Pertence à família Marcileaceae e ao género Marsilea L.. Trata-se de um pteridófito endémico dos Açores existente num charco da zona central da ilha Terceira, junto ao Pico da Bagacina, no Concelho de Angra do Heroísmo, que está em situação de conservação crítica. São conhecidos fora de cultura apenas cerca de 50 exemplares.
Conhecida popularmente como trevo-de-quatro-folhas, essa planta é efectivamente um pequeno feto herbáceo, com pouco mais de 15 cm de altura. As suas características morfológicas aproximam-na da espécie europeia Marsilea strigosa Willd (Launert & Paiva, 1983). O género Marsilea contém, aproximadamente 65 espécies de pteridófitas aquáticas. São conhecidas popularmente, noutros locais, por trevo-de-água, dada a semelhança das suas folhas com um trevo e por também serem plantas aquáticas. Esta forma das folhas e a estrutura da planta dá às espécies deste género um aspecto pouco usual e dificilmente associável aos fetos.
As folhas estão, em geral, dispostas numa única roseta em torno de um curto caule que permanece enterrado nas águas e sedimentos da zona pantanosa.
A Marsilea azorica, incorpora a lista vermelha da IUCN (International Union for Conservation of Nature) de espécies ameadas (Walter & Gillett, 1998) e faz parte do Top 100 das espécies prioritárias de gestão na região europeia biogeográfica da Macaronésia (Martín et al., 2008).
Porque ocorre num pequeno charco, pode-se considerar que se encontra num habitat de Zonas Húmidas Interiores. A espécie é muito vulnerável: pela reduzida população, pela pequena distância à via de circulação Angra do Heroísmo - Doze Ribeiras (5-2A), onde um despiste automóvel poderá extingui-la por completo, pela fragilidade da vedação, que é de fácil transposição e, pela ausência de vigilância. Ainda constituem potenciais ameaças, de acordo com Martín et al., (2008), o desenvolvimento agrícola da zona, mudanças no uso dos solos, o desenvolvimento de infra-estruturas na proximidade e a contaminação das águas de escorrência superficial ou a degradação do habitat por espécies exóticas.
O rizoma da planta é robusto, de 0,40 mm a 1,25 mm de diâmetro, com entrenós de 4 a 35 mm de comprimento, não ramificado, quase glabro excepto nos nós, onde é ligeiramente viloso (Launert & Paiva, 1983).
As folhas são quadri-lobadas, com os 4 lobos bem pronunciados e semelhantes aos dos trevos, desenvolvendo longos pecíolos flexíveis que permitem que a sua lâmina atinja a superfície da água. A espécie apresenta pecíolos com alguma rigidez, o que permite manter as folhas acima da superfície da água do charco.
Os pecíolos são glabros na sua parte terminal, com 2,5 cm a 12,0 cm de comprimento, delgados, cilíndricos e obtusamente angulosos. As folhas são peltadas, esparsamente pilosas na página inferior, com folíolos obdeltóides com 8-17 mm por 6-17 mm. Os folíolos apresentam as margens externas convexas e inteiras, de cor verde-vivo quando juvenis ou verde-azeitona quando envelhecidos ou quando expostos à secura. Os esporocarpos são elípticos, com 3,8-4,5 mm por 2,9-3,3 mm, dispostos em grupos de dois ou três na base dos pecíolos, com pedículos fortes e recurvados, com comprimento que pode ser o dobro da base do esporocarpo. Cada esporocarpo apresenta 6-8 soros de ambos os lados (Launert & Paiva, 1983).
Os esporocarpos de algumas espécies de Marsileas australianas, como a Marsilea drummondii, são comestíveis e foram utilizados na alimentação humana pelos povos aborígenes e pelos primeiros colonos europeus da Austrália (Chick et al, 1985). Não se conhece qualquer relato na ilha Terceira acerca da utilização dessa planta na alimentação ou medicina tradicional.
Na Região Autónoma dos Açores foi aprovado o Plano Sectorial da Rede Natura referente a esta Região Autónoma (Decreto Legislativo Regional n.º 20/2006/A de 6 de Junho) onde se pretende promover acções específicas de conservação da Natureza e da Biodiversidade, tendo em vista o conhecimento, a monitorização, a salvaguarda, a gestão e a valorização dos habitats e das espécies presentes nestas áreas. Nesse contexto, foi colocada uma vedação em madeira para a protecção da única população de Marsilea azorica existente no arquipélago, como medida de conservação in situ.
A vedação de protecção à população de Marsilea azorica na ilha Terceira foi construída por mais de duas centenas de agentes de viagem, aquando da V Convenção Mundovip, realizada na ilha Terceira em 2008, cuja cerimónia contou com a presença de Eduardo Dias, professor da Universidade dos Açores e especialista na matéria, e de Frederico Cardigos, Director Regional do Ambiente.
Utilizando a mesma metodologia que Martín et al., (2008), Baudet, (2008), coloca a Marsilea azorica no primeiro lugar do Top 50 das plantas das ilhas da Macaronesia criticamente ameaçadas.
A Marsilea azorica precisa de um olhar especial e de investigação capaz de a propagar em outros habitas, pois de outro modo a sua extinção é iminente.
Ainda perdura, Na efemeridade De Rerum Natura, Entre os Minotauros da ilha, Como se fosse sua filha, Como se fosse aficionada, De touradas e Carnaval. De trevo disfarçada, Em feto incorporada, Tem a essência original.
Bibliografia
Baudet, A.B. 2008. TOP-50 of the Macaronesian Islands Plants. IUCN. Viceconsejería de Medio Ambiente del Gobierno de Canarias. Spain.
Chick, B.F., Quinn, C. & McCleary, B.V. (1985) ‘Pteridophyte Intoxication of Livestock in Australia’. In A.A. Seawright’s (Ed.) Plant Toxicology: Proceedings of the Australia – USA Poisonous Plants Symposium. Brisbane, Australia. May 14-18, 1984. Yeerongpilly: Queensland Department of Primary Industries.
Launert, E. & Paiva, J. 1983. Iconographia Selecta Florae Azorica. 2 : 159-163.
Martín, J.L., Arechavaleta, M., Borges, P.A.V. & Faria, B. 2008. Top 100. Las 100 especies amenazadas prioritárias de gestión en la región europea biogeográfica de la Macaronesia. Consijería de Medio Ambiente y Ordenación Territorial, Gobierno de Canárias. Espanha.
Walter, K.S. and Gillett, H.J. 1998. 1997 IUCN Red List of Threatened Plants. IUCN (The World Conservation Union), Gland, Switzerland and Cambridge, UK.
Depoimento em vídeo de Eduardo Dias
Universidade dos Açores
Perdura,
Na efemeridade "De Rerum Natura",
Entre os Minotauros da ilha,
Como se fosse sua filha,
Como se fosse aficionada,
De touradas e Carnaval.
De trevo disfarçada,
Em feto incorporada,
Tem a essência original.