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Líquenes
Usneas
Os líquenes são a forma de vida predominante em cerca de 8% da superfície terrestre, com percentagens superiores a esta nas regiões polares e no topo das montanhas.
São razões deste tipo que levam alguns investigadores a designá-los de organismos extremófilos. Entende-se por extremófilo todo o organismo que consegue sobreviver, ou até necessita de condições físicas geoquímicas ou ambientais extremas, prejudiciais à maioria das outras formas de vida na Terra. Os extremófilos mais conhecidos são microrganismos.
Em experiências recentes, levadas a cabo pela Agencia Espacial Europeia, foram transportados para o espaço alguns líquenes terrestres e expostos ao vácuo, a temperaturas extremas e a intensa radiação ultravioleta, tendo sobrevivido a essas condições ambientais adversas, o que demonstra as suas características extremófilas.
Um líquen é uma associação simbiótica entre um fungo (o micobionte) e uma alga ou cianobactéria (o fotobionte), ou seja, é uma união proveitosa para ambos os organismos, uma vez que o fotobionte produz matéria orgânica, através da fotossíntese, matéria essa, que alimenta o fungo. Por outro lado, o micobionte ministra o suporte físico, o ambiente húmido e os minerais que a alga vai utilizar para realizar a fotossíntese. Assim, um líquén é um par de seres vivos, impossibilitados de viver em separado num dado ambiente.
Quando ambos os organismos têm condições favoráveis ao seu desenvolvimento, a liquenização não ocorre. Esta associação dá-se para permitir aos indivíduos intervenientes na simbiose suportar condições ecológicas diferentes daquelas que cada um dos dois seres poderiam tolerar vivendo isoladamente.
O fungo é geralmente um ascomiceto, e a alga, pertence a um género de alga verde ou cianobactéria. Os líquenes têm características específicas e são morfologicamente diferentes de cada um dos componentes que participa na associação.
O método de reprodução mais comum nos líquenes resulta da formação de uma pequena gema ou sorédio, composta de filamentos do fungo que rodeiam uma ou mais células da alga. O sorédio separa-se, e ao dispersar-se, origina o líquen.
Calcula-se que existam 13.500 espécies (aproximadamente 600 géneros) de fungos liquenizados, o que corresponde a 20% dos fungos conhecidos. A grande maioria (98%) dos fungos liquénicos são, tal como anteriormente referido, Ascomicetos e 46% desses são liquenizados, podendo afirmar-se que a liquenização é a grande regra e não uma excepção nesse grupo de fungos (Honda & Vilegas, 1999).
Algumas espécies de líquenes são utilizadas como alimento humano ou animal (por exemplo a Cladina rangiferina) ou na medicina popular, como é o caso da Lobaria pulmonaria. Também foram utilizados ao longo da história como corantes naturais, como é o caso da urzela (Roccela tinctoria) que servia para colorir de cor púrpura, fibras têxteis e papel. As técnicas de confecção de um corante a partir da urzela, baseadas na maceração do líquen seco com urina, foram durante muitas décadas um valor guardado em segredo pelos tintureiros flamengos, que importavam a matéria prima dos arquipélagos atlânticos Açores, Madeira, Canárias e Cabo Verde, mantendo vivo um comércio que se iniciou no começo do século XV se manteve activo até cerca de 1850.
Pelo que se acaba de expor, encontram-se líquenes numa grande variedade de habitats, pois têm uma enorme resistência às condições climáticas. Esses organismos têm uma grande importância ecológica, pois são normalmente os primeiros a colonizar os habitats, ainda não povoados por outros seres vivos.
Pode-se afirmar que os líquenes contribuem ainda para a formação do solo, pelo facto de utilizarem as rochas nuas como substrato onde se fixam e segregarem substâncias que contribuem para a sua deterioração, acelerando desse modo, o processo da formação do solo. Por possuírem cianobactérias que fazem a fixação do azoto atmosférico, contribuem também para a acumulação de azoto no solo.
Os líquenes são das primeiras espécies a revelar sintomas dos efeitos tóxicos da poluição do ar. Os mapas da distribuição dos líquenes são usados como indicadores da qualidade do ar e a medição da concentração dos poluentes em líquenes é um dos métodos mais aplicados em estudos de biomonitorização (Resendes et al., 2008). Assim sendo, a presença de determinadas espécies de líquenes, como o caso das Usneas, é indiciador de excelente qualidade do ar (Rodrigues, et al, 2008).
As Usneas, são organismos poiquiloídricos, que apresentam taxas de hidratação directamente dependentes das variações na humidade atmosférica, por mais pequenas que estas sejam. Não possuem mecanismos ou estruturas de retenção de água, como camadas cerosas e cutícula. Absorvem a água através de toda a superfície, assim como os nutrientes dissolvidos. São, desta forma, bons acumuladores de catiões que se depositem na sua superfície (Brown & Beckett, 1983; Nimis, 1990).
Usnea é o nome científico genérico atribuído a várias espécies de líquenes da família Parmeliaceae, que crescem geralmente em zonas húmidas em troncos e ramos das árvores. O seu aspecto é semelhante a “barbas verdes” ou “barbas de milho-verdes” constituídas por talos com aspecto de cabelo que caiem dos troncos ou dos ramos das árvores mais velhas. Em Angra do Heroísmo é possível observá-los nas árvores das Veredas, nas árvores ou arbustos endémicos que rodeiam o Algar do Carvão ou nas das Furnas do Enxofre.
As usneas são líquenes umbilicados (classifica-se um líquen como umbilicado quando possui um talo circular, como na figura seguinte, e que está preso ao substrato por um único ponto, como nos líquenes designados por Umbilicárias), penetrando ligeiramente as suas hifas (hifa é um longo e ramificado filamento que em conjunto com outras hifas forma o talo de um fungo) no substrato para se fixar (normalmente a casca das árvores).

Figura 1- Imagem de microscópio electrónico do talo e hifas da Usnea rubicunda, obtida por Nash III, (2008).

Todas as usneas possuem ácido úsnico cuja estrutura molecular se representa na figura 2.
O ácido úsnico possui uma grande variedade de propriedades biológicas: é um potente antibiótico, eficaz contra bactérias Gram-positivas, entre as quais se encontra o Mycobacterium tuberculosis (a bactéria que provoca a maioria dos casos de tuberculose), Estafilococos (bactérias com forma de cocos que causam doenças no ser humano, para as quais ainda não existe cura), Estreptococos (patogénicos mais comuns), e Pneumococcus (pneumonia bacteriana) e também é eficaz no combate a fungos patogénicos.


Figura 2 - Fórmula de estrutura do ácido úsnico.

O ácido úsnico também exibe ainda propriedades anti-virais, anti-protozoais, anti-micóticas, anti-inflamatórias e actividade analgésica.
O ácido úsnico também é utilizado em produtos de beleza, pastas de dentes, desodorizantes, champôs e protectores solares.
A zona central da ilha Terceira é fértil em comunidades de usneas, contendo espécies como a Usnea cornuta, a Usnea esperantiana, a Usnea florida, a Usnea hirta, a Usnea krogiana, a Usnea macaronesica, a Usnea rubicunda, a Usnea subflammea, a Usnea madeirensis e a Usnea subscabrosa. Dessas, a Usnea krogiana (endemismo macaronésico) tem uma distribuição razoável nos Açores, Madeira e Canárias (excepto Santa Maria, São Jorge e Graciosa), a Usnea macaronesica (endemismo macaronésico) é conhecida apenas nas ilhas orientais das Canárias e nos Açores (Terceira, Pico e Faial), a Usnea madeirensis que é rara na Europa, Macaronésia e América do Norte existe nos Açores apenas na Terceira, e a Usnea subflamea, endémica da Macaronésia existe nos Açores apenas na Terceira, Pico e Faial.
Encontrar comunidades de espécies variadas de usneas não é comum, podendo tal ser observado no Concelho de Angra do Heroísmo. Por outro lado, cada espécie de Usnea produz substâncias químicas distintas, o que faz com que tais comunidades possam constituir um recurso natural impar, em termos farmacológicos, de fácil acesso e fácil gestão. Actualmente, são conhecidos aproximadamente 630 compostos provenientes do metabolismo secundário de líquenes (Honda & Vilegas, 1999). O interesse na química de polissacáridos de líquenes está na possibilidade de serem usados no tratamento de tumores.

Os líquenes,
Com rizinas, ou sem elas,
São janelas, pequeninas,
…e tão belas,
Para uma vida, escondida,
Em simbiose ou em osmose.
Bibliografia
Brown, D.H. & Beckett, R.P. 1983. Differential Sensitivity of Lichens to Heavy Metals Annals of Botany. 52: 51-57.

Honda, N-K. & Vilegas, W. 1999. A química dos liquens. Química Nova. 22 (1): 110-125.

Nash
III, T. 2008. Lichen biology. 2ª edition. Cambridge University Press.

Nimis
, P.L., 1990. Air quality indicators and indices: the use of plants as bioindicators for monitoring air pollution. In: Colombo, A. G. & Premazzi, G. (Eds.), EUR 13060 EN.

Resendes
, H., Talaia, M. e Rodrigues, F. (2008). Questões Problema – Elo de interligação entre Teoria e Prática. Livro de Resumos Física 2008. Actas da 16ª Conferência Nacional de Física e 17º Encontro Ibérico para o Ensino da Física. 3-6 de Setembro. Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa. Lisboa.

Rodrigues
, F., Resendes, H. e Talaia, M. (2008). Questões problema de Física em torno das Furnas – São Miguel. Actas do VII Encontro Internacional de Inovação Educacional. Campus do Pico da Urze da Universidade dos Açores. Angra do Heroísmo.
Depoimento em vídeo de Félix Rodrigues
Universidade dos Açores
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Os líquenes,
Com rizinas, ou sem elas,
São janelas, pequeninas,
…e tão belas,
Para uma vida, escondida,
Em simbiose ou osmose.
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