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Mítica "Insula Capraria",
De simples indumentária:
Vulcânica, palagonitizada.
Ergástulo de firmeza indomada,
Mesmo que de mar cercada.
Ilhéus das Cabras
Os ilhéus das Cabras são um ícone incontestável do Concelho de Angra do Heroísmo e da ilha Terceira. São constituídos por duas pequeninas ilhas, outrora uma só, situadas frente à costa sul da ilha Terceira, na freguesia do Porto Judeu. São constituídos pelos restos de um cone vulcânico palagonitizado.
A formação da palagonite iniciou-se com a interacção entre a água e o basalto em fusão quando lavas basálticas emergiram num ambiente marinho. A água em contacto com a lava transformou-se instantaneamente em vapor e pulverizou o material basáltico da erupção em finos fragmentos, os quais, nessa reacção, formaram um material vítreo de cor clara que, depois de mais ou menos solidificado e soldado por compressão a quente, originou formações de tufos vulcânicos, cujos exemplos mais conhecidos são os típicos cones litorais das ilhas vulcânicas açorianas, no qual se encaixam os Ilhéus das Cabras.
Um outro exemplo de grandes formações palagoníticas são o Monte Brasil e o ilhéu de Vila Franca, nos Açores, e os cones costeiros das ilhas Galápagos, onde esse material foi descrito pela primeira vez por Charles Darwin.
Rochas semelhantes à palagonite foram observados entre os regolitos que recobrem a superfície do planeta Marte, sendo uma das provas mais sólidas de que naquele planeta terá existido água em abundância.
Os ilhéus das Cabras na ilha Terceira, são os maiores dos Açores, onde se percebe que o vulcão surtseyano que o originou tem sido desmantelado pela erosão marinha e pelas movimentações tectónicas. O sismo de 1980, que derrubou Angra do Heroísmo, desmoronou uma pequena parte do ilhéu pequeno.
Com estatuto de Zona de Protecção Especial, este conjunto de dois ilhéus são chamados individualmente de Ilhéu Pequeno e Ilhéu Grande. O ilhéu maior (Ilhéu Grande), a nascente, tem 147 metros de altura e possui, além de várias furnas, uma grande câmara vulcânica. O ilhéu Pequeno tem 84 metros de altura.
A área total dos dois Ilhéus das Cabras é de cerca de 29 hectares e têm uma linha de costa de 3239 m. O canal que os separa é bastante profundo com cerca 200 m de largura.
Há quem refira que durante a II Grande Guerra, um submarino alemão se refugiou entre esses dois ilhéus para fugir ao ataque dos submarinos americanos. A ser verdade, tal situação comprova a grande profundidade das águas entre os dois ilhéus.
O rei D. Manuel I doou os Ilhéus, hoje designados das Cabras, ao morgado e provedor Pires do Canto.
Segundo se lê no Dicionário Enciclopédico das Freguesias, Fernão de Hutra terá vivido desterrado durante sete anos nesse local.
A história lendária de Fernão de Hutra, que acabou os dias da sua vida desterrado nos ilhéus das Cabras, é contada por Ferreira Deusdado no seu livro publicado em 1907 com o título “Quadros Açóricos”. Segundo esse autor, Fernão de Hutra foi um imprudente mancebo faialense que se apaixonou por uma freira, e pela impossibilidade de a ver, tencionava raptá-la. Para isso, fez um pacto com o diabo, só que foi mal sucedido.
O jovem foi forçado a sair da cidade da Horta tendo sido encaminhado para a cidade de Angra. Aí, continuando na vadiagem enamorou-se de uma das filhas do alcaide-mor. Este, para evitar um trágico desenlace do romance, foi falar com o cunhado que era proprietário dos ilhéus das Cabras, e ambos conseguiram prender o boémio Hutra, levando-o para os ilhéus.
Fernão de Hutra permaneceu durante sete anos nos ilhéus e continuou com o seu pacto com o diabo, até que numa noite, se sentiu arrependido e morreu, mas só depois de ter sido absolvido e ungido por um fradinho, que misteriosamente lhe aparecera.
Nas imediações dos Ilhéus das Cabras encontram-se uns penhascos chamados de ilhéus dos Fradinhos.
Ferreira Deusdado, refere no seu livro que “além da pequena baixa denominada a Fraga tinha esta um pequeno ilhéu pegado a terra chamado das Cabras, porque lá andam estes animais e ovelhas pastando, mas não é de grande proveito”. Talvez se deva a esse facto a designação de Ilhéus das Cabras, ou tal como ainda refere o mesmo autor, possa resultar da remota designação de Insula Capraria que figura no texto do poeta romano Plínio.
Os Ilhéus das Cabras são uma Zona de protecção Especial, apesar de possuírem apenas vegetação rasteira não endémica, mas no que diz respeito à avifauna, podem observar-se aí o cagarro (Calonectris diomodea borealis) e o garajau-comum (Sterna hirundo), espécies protegidas pelo Anexo I da Directiva Aves, contando-se também com a presença de espécies como a garça-real (Arrfea cinerea) e o borrelho-de-coleira-interrompida (Charadrius alexandrinus). Na ZPE dos ilhéus das Cabras existem cinco espécies selvagens nidificantes.
Os ilhéus das Cabras são também uma zona frequentada por pequenos cetáceos, destacando-se a toninha-brava (Tursiops truncatus) e tartarugas, como a tartaruga-boba (Caretta caretta), espécies constantes do Anexo II da Directiva Habitats da União Europeia.
Os Ilhéus das Cabras oferecem no Verão a vizinhança árida dos silêncios sensíveis, e no Inverno, o verde da ilha solúvel no mar. São assim a:

Mítica Insula Capraria,
De simples indumentária:
Vulcânica, palagonitizada.
Ergástulo de firmeza indomada,
Mesmo que de mar cercada.

Depoimento em vídeo de João Pedro Barreiros
Universidade dos Açores
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