A geomorfologia da ilha Terceira apresenta uma forma característica arredondada com uma península bastante prenunciada resultante do extinto vulcão do Monte Brasil. Essa península (Monte Brasil) resultou da acumulação de cinzas por queda directa do material projectado pela erupção de um vulcão submarino. A ligação que, posteriormente se formou entre a ilha e o Monte Brasil, tem cerca de 500 metros de comprimento por 500 metros de largura. Do cimo do Monte, vê-se com perfeição a junção entre a ilha Terceira com o esse extinto vulcão às Portas da Cidade de Angra do Heroísmo.
A erupção do Monte Brasil foi do tipo surtsiano ou surtseiano, caracterizada pelo facto da chaminé ter estado em contacto com a água do mar. Uma erupção surtseiana é um tipo de erupção vulcânica que ocorre em locais de mares pouco profundos. Essa classificação recebeu esse nome em homenagem à ilha vulcânica de Surtsey, na costa meridional da Islândia.
Não se sabe ao certo quando ocorreu a erupção do Monte Brasil, mas foi certamente há mais de 20.000 anos, com explosões violentas e formação de nuvens ardentes. As nuvens ardentes podem formar-se numa erupção explosiva, sendo composta por uma mistura quente de gases e material sólido que se desloca a elevadas velocidades. A erupção criou na ilha Terceira uma angra abrigada, em torno da qual se instalou a cidade.
É frequente, nas erupções vulcânicas mais violentas, a formação de uma mistura de materiais sólidos incandescentes de dimensões variadas (cinzas, bagacina, bombas e blocos), bem como de gases a elevadas temperaturas (cerca de 1000º C).
Geológicamente a baía de Angra apresenta fundos formados por escoadas lávicas de natureza basáltica em grande parte recobertos por escoadas piroclásticas do tipo surtseiano (tufos palagoniticos) com origem no vulcão que ajudou a definir a própria baía. Estas últimas escoadas piroclásticas que tiveram origem em erupções submarinas, apresentam-se muito solidificadas e compactas.
A Terceira pertence à região biogeográfica da Macaronésia que conjuga características geológicas com especificidades da fauna e principalmente da flora.
As ilhas oceânicas da Macaronésia (Açores, Cabo Verde, Canárias e Madeira), de origem vulcânica, nunca estiveram unidas ao continente e partilham os restos da flora subtropical que habitava a Europa durante o Terciário. Na escala de tempo geológico o período Terciário está compreendido entre 5 milhões e 332 mil e 1 milhão e 806 mil anos, aproximadamente. Assim, aquando da erupção do vulcão do Monte Brasil, já existia na ilha Terceira vegetação desse período, ou seja, floresta de laurissilva que escapou à glaciação que atingiu as grandes massas continentais, sendo neste momento uma relíquia viva e única da era Terciária.
Os mais antigos ignimbritos da ilha Terceira, tem idades compreendidas entre 50.000 e 800.000 anos e deverão estar associados ao Vulcão dos Cinco Picos (Serra do Cume) e Santa Bárbara (Sparks et al., 1973). Datações de K/Ar, levadas a efeito por Feraud et al. (1980) em lavas próximas do topo da Serra do Cume apontaram para uma idade de 300.000 anos com um erro de 100.000 anos, o que faz pressupor que a caldeira dos Cinco Picos se terá formado posteriormente a esta idade (Nunes, 2000). Sob a base da ilha, encontrar-se-ão materiais que ultrapassam as idades aqui referidas.
Tal como em Pompeia, antiga cidade do Império Romano situada próxima da moderna Nápoles, na Itália, que foi destruída durante uma grande erupção do Vesúvio em 24 de Agosto do ano 79 d.C. e na qual se encontram corpos envoltos em materiais vulcânicos, a flora de Angra do Heroísmo ficou prisioneira das cinzas da erupção do Monte Brasil. Cinzas e lama moldaram árvores enormes, provavelmente de Laurus azorica, bem como heras endémicas (Hedera azorica), inclusivamente plantas herbáceas do Terciário, provavelmente extintas neste momento, mesmo nas ilhas. Esses fósseis vulcânicos têm particular importância por se referirem à flora de ilhas ainda não ocupadas por mamíferos. O estudo dos fósseis do Monte Brasil, anteriores à ocupação dos Açores pelos portugueses, permitir-nos-á perceber o real impacto do homem em ilhas virgens ou espaços ainda não intervencionados. Noutros locais, são encontrados fósseis vulcânicos animais e plantas nunca antes descritos pelo homem. É assim possível perceber se o desaparecimento de uma espécie resultou ou não da intervenção humana num dado território.
Foi o Tenente-coronel José Agostinho, o primeiro a referir-se aos fósseis vulcânicos do Monte Brasil. Alguns desses fósseis fazem parte do espólio da Associação “Os Montanheiros”, havendo mesmo algumas colecções particulares.
Grandes orifícios, antes ocupados por troncos de árvores são bem visíveis nas cinzas vulcânicas das falésias do Fanal, em plena Angra do Heroísmo. Esses fósseis são relíquias do passado natural da Terceira, e um património que interessa preservar, porque conta a história de uma ilha em evolução, e porque neles é visível a violência deste ambiente, construído a partir do fundo do mar.
Os fósseis do Monte Brasil são uma raridade a nível nacional mas também a nível internacional, não pela sua idade, mas pela juventude e génese.
Aqui;
Evolui-se,
Mesmo debaixo do fogo de um vulcão
Que cozinha e recaptura a vida,
Numa nuvem ardente:
Seja planta ou seja gente.
Bibliografia
Feraud, G., Schincke, H-U., Lietz, J., Gostaud, J., Pritchard, G. & Bleil, U. 1980. New K-Ar ages, chemical analyses and magnetic data of rocks from the islands of Santa Maria (Azores), Porto Santo and Madeira (Madeira archipelago) and Gran Canaria (Canary Islands). Arquipélago. 5: 213-240.
Nunes, J.C., 2000. “Geodynamic framework of the Azores Archipelago”. International Association of
Hidrogeologists – CMTW Meeting 2000. Outubro. Ponta Delgada. São Miguel.
Sparks, R.S.J., Self, S., & Walker. G.P.L. 1973. Products of Ignimbrite Eruptions. Geology. 1: 115-118.
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