Caracol da Fonte da Telha – Oxychilus furtadoi Martins, 1989
“Os Moluscos terrestres são geralmente uma componente importante da fauna de invertebrados dos habitats nativos das ilhas. Com 93 das 111 espécies descritas, são os gastrópodes da ordem Stylommatophora que dominam a malacofauna terrestre dos Açores.
É o filo que possui o mais elevado grau de endemicidade (44%); a distribuição dos endemismos, porém, não é homogénea. Em seis das nove ilhas açorianas, os endemismos representam mais de 25% da malacofauna, destacando-se São Jorge, com 33,3%. Nas restantes ilhas, a taxa de endemismo situa-se entre os 17% e 24%. Apenas quatro ilhas possuem endemismos exclusivos, destacando-se Santa Maria, com cerca de 70%. São Miguel e Terceira apresentam endemismos de ilha acima dos 20% e o Faial, abaixo de 10%. Pela elevada percentagem de endemismos que comporta, a malacofauna dos Açores, para além de um inestimável património científico e interessante objecto de estudo, constitui um precioso indicador para estratégias de conservação, devendo o seu estudo aprofundado ser considerado prioritário” (Toste & Martins, 2009).
Nos Açores, estão identificados 16 espécies de Oxychilus, possuindo a ilha Terceira os Oxychilus atlanticus, Oxychilus cellarius, Oxychilus draparnaudi, Oxychilus volutella (endémicos dos Açores e presente em todas as ilhas), Oxychilus miguelinus (endémico de Santa Maria, São Miguel, Terceira e Pico), Oxychilus scoliura (endémico da ilha Terceira) e os Oxychilus miceui e Oxychilus furtadoi (endémicos do Concelho de Angra do Heroísmo). “Os caracóis são moluscos terrestres, criaturas lentas, tímidas, sempre prontas a retrair-se na concha que lhes serve de abrigo. Espreitam o mundo do alto dos seus longos tentáculos cefálicos, onde se situam os minúsculos olhos; possuem ainda um segundo par de tentáculos, menores, mais perto da boca, que lhes servem como órgãos tácteis. Os caracóis terrestres afins de grupos marinhos, bem como os caracóis de água doce, possuem apenas um par de tentáculos, estando os olhos situados na base destes, sobre a cabeça. Movem-se sobre um pé achatado, emitindo ondulações musculares e deixando um trilho de muco que lhes aplana o caminho e muito provavelmente contém sinais químicos para os parceiros. Na maioria são herbívoros, embora detritos de vária ordem possam ser por eles muito apreciados. Há, porém, caracóis carnívoros; alimentam-se de outros caracóis e de carcaças de pequenos animais” (Frias Martins, 2009).
“A concha é composta de carbonato de cálcio ligado por uma substância orgânica, a conquiolina; esta última é especialmente abundante numa camada que cobre a concha – o perióstraco – e que a defende da acidez do meio. O tipo de concha mais primitivo é o pateliforme (como a que as lapas têm); nos moluscos terrestres ela é tipicamente helicoidal” (Frias Martins, 2009).
"A maioria dos caracóis terrestres é hermafrodita, isto é, possui os dois sexos; quase todas as espécies, porém, necessitam de copular, embora existam exemplos de partenogénese – reprodução sem cópula. A gónada produz, alternadamente, espermatozóides e óvulos; assim, no acto da cópula ambos os parceiros actuam como machos e transferem o esperma em cápsulas segregadas para o efeito – os espermatóforos –, que o parceiro guarda numa bolsa especial. Algum tempo depois são produzidos os óvulos que serão fecundados pelo esperma guardado" (Frias Martins, 2009).
Ao estudar, a corrida do caracol,
Vi que o tempo parou.
O caracol é a própria moradia:
Não tem tempo p’ra projectar,
Nem tão p’ra edificar.
Mede a sua idade,
Pela extensão do seu rasto:
Que é uma estrada de si mesmo,
Ou o trajecto do seu pasto.
Ao olhar para trás,
Vê rodopios na recta da vida,
Nos locais onde amou,
Sob a luz do Sol,
Outro caracol,
Sem perceber,
Ou mesmo entender,
Se era macho ou fêmea.
Porque o tempo escasseia,
Traz consigo os dois sexos,
Para fazer de todos os encontros,
Romance.
O caracol é romântico,
Com gosto pela geometria:
Tem casa em espiral,
Move-se na vertical,
Com a mesma magia,
Que o faz na horizontal.
Bibliografia Frias Martins, A. 2009. Caracóis: Variações sobre um tema. CIBIO-Açores. Universidade dos Açores. Ponta Delgada.
Toste, M. & Frias Martins, A. (2009). Preview of images of endemic molluscs from the Azores. Univ. Azores, Angra do Heroísmo.
Depoimento em vídeo de António Frias Martins
Universidade dos Açores
Numa espiral lenta,
Desenha-se a concha do oxychilus.
Gira-a, ao ritmo do silêncio e lentidão
Da senda do caracol.
Ficarás sem saber onde a rematar,
Quando apreenderes que se transforma,
Numa encarnação do mundo invisível.